domingo, 17 de julho de 2011

o verde e a árvore coexistem

1.

há sons significativos
dos quais
nenhuma parte
pode, por si mesma,
ter significação:

o verde e a árvore coexistem.

nem vida,
nem ciência da vida;
— Terão de sulcar essa distância indo, por um ziguezague indefinido,
do semelhante ao que lhe é semelhante.

todos os signos que mostram que os textos escritos
não dizem a verdade assemelham-se. "relações constantes existem entre
   a estrutura dos dentes dos carnívoros e a de seus músculos,
      de seus dedos,
         de suas unhas,
            de sua língua,
               de seu estômago,
                  de seus intestinos".

o verde e a árvore coexistem.

2.

o alinhamento dos conhecimentos:
estes, com efeito, não são fenômenos
da hereditariedade e da tradição.

— Castelos nas estalagens e damas nas camponesas!

a região mais erudita, mais informada, mais desperta,
mais atravancada talvez de nossa memória. há apenas leis de justaposição.
"o trabalho é a medida real do valor permutável de toda mercadoria" —
até a descoberta, por Mallarmé, da palavra em seu poder impotente.

— Castelos nas estalagens e damas nas camponesas!

3.

esse retorno que,
ainda que não seja feliz,
é perfeito.
essa estranha inquietude
que o coloca no dever
de repetir a repetição.

(à força de digressões repetidas, teria surgido a diversidade infinita dos animais
os seres dispersos e estáveis por instantes formam-se, detêm-se, são, por sua vez,

4.

destruídos. acontecimentos extralinguísticos:
invasão, comércio, migração. o verde

e a árvore coexistem. a propósito do sânscrito
e do grego, o verde e a árvore

coexistem o espaço do corpo e o tempo da cultura. essas
objeções podem, realmente, numa posição "metaepistemológica",
subdivididas no interior de si mesmas, ir mais longe. Sabe-se que,

nas ciências humanas)

5.

o verde e a árvore coexistem.

há sons (...)


remix de As Palavras e as Coisas, de Michel Foucault

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