domingo, 17 de julho de 2011

o corpo do homem

o corpo do homem é sempre a metade possível de um
atlas universal: deriva diretamente desse primeiro

vocabulário agora esquecido, não é mais que erosão ou acidente,
introdução, encontro e mistura de elementos. em direção

de seu segredo, o comentário se detém; os nomes como formas, os
adjetivos como cores e o verbo como a própria tela onde elas

aparecem: tudo isso não passa de depósito e sedimentação em torno e acima de.


o corpo do homem é sempre a metade possível de um
sujeito, de um verbo, de um atributo; grito lançado

de propósito, a impressão da cor vermelha, a fricção de um corpo
contra outro, a monotonia confusa do espaço, a figura de uma

borboleta: a faixa de obscuridade que separa todos os poentes de
todas as auroras. em direção de seu segredo, a velha palavra

história muda então de valor e reencontra talvez uma de suas significações arcaicas.


o corpo do homem é sempre a metade possível de um
campo novo de visibilidade — sem a menor falha, a

menor reticência, o menor véu; tão tênue, tão transparente,
tão desarrazoado, esse modo de ser radical que prescreve

seu destino a todos os seres empíricos. em direção de seu segredo,
sua inocência permanece sempre como uma potência soberana:

uma figura intermediária entre a articulação dos conteúdos e o valor das raízes.


remix de As Palavras e as Coisas, de Michel Foucault

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