À Procura da Felicidade - mesmo?
Disseram: “Trata-se de um homem obstinado que luta para sobreviver e sustentar seu filho mesmo sob as mais árduas circunstâncias, sem que isso o faça ignorar os principais valores nem perder as esperanças”. Só que é mentira. O filme mais recente de Will Smith, À Procura da Felicidade, é um sofisma em forma de drama, uma armadilha, um livro de autoajuda escamoteado. Essa produção não é uma apologia à esperança, como todos parecem imediatamente predispostos a acreditar. É muito mais um elogio ao trabalho: panacéia que, feitos os necessários sacrifícios, nos dará tudo.
Alguém previu isso nas entrelinhas do mundo faz tempo. George Orwell fez um estereótipo para enquadrar o trabalhador que tem no seu trabalho quase um fim em si mesmo. À Procura da Felicidade é a transposição otimista dessa figura de A Revolução dos Bichos (pdf): o longa-metragem recria o cavalo Sansão.
Pode-se colocar o roteiro em poucas palavras: Will Smith perde a mulher, a casa e a dignidade. Abandona o emprego que, mesmo que mal, o sustentava, para o que do ponto de vista da mulher era de novo uma aventura. Entra em estágio sem remuneração e assim seu filho dorme em banheiros, alojamentos públicos e não vai à escola. Quando trabalhando, é um aluno aplicado e um puxa-saco vigoroso. Em suma: esqueça os outros e mesmo você, trabalhe e prospere.
Pelo menos três filmes americanos vieram para dizer a mesma idéia: o já supracitado, a comédia O Diabo Veste Prada e a biografia do rapper 50 Cent, Fique Rico ou Morra Tentando. Produtos adequados a cada público: o primeiro, para os homens mais velhos, pais de família talvez fracassados em empregos inúteis. O segundo, para mulheres em qualquer idade que não se sintam realizadas profissionalmente. E o terceiro direciona-se aos jovens. Todos eles servem a dizer o lema do cavalo Sansão. Por exemplo: na versão feminina, a menina se submete a todo tipo de humilhação por parte da chefe; casada, flerta com uma jornalista por uma indicação de emprego; abandona os amigos e o marido. Mas evolui profissionalmente.
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Disseram também: “o filme retrata o sonho americano, onde o trabalho duro individual pode levar qualquer um longe na terra das oportunidades”. Será? Se assim for, o filme faz uma condenação violenta: separa o mundo entre os fracassados e os felizes, mostrando a história de transição de um só entre os lados. Veja todos aqueles sem-teto de À Procura da Felicidade, enquanto procuravam dormitórios gratuitos junto com Will, que logo seria bem-aventurado, naquela fila que acompanhava quarteirões; repare naquelas pessoas todas e lembre-se que, provavelmente, morreram todas sem sequer jantar com um prato e uma mesa, sem nunca terem se tornado personagens de um filme cheio de esperança. Será que a oportunidade pairou em frente a eles e todos falharam? Só Will Smith fez as escolhas corretas?
O maior truque do filme é ser baseado em uma história real. Porque assim se define como possível. Porém, é uma conquista tão real quanto qualquer recorde do Guinness. Matthew Henshaw, da Austrália, engoliu uma espada de 40 centímetros com um saco de batatas de 20kg pendurado no cabo, o que não quer dizer que você possa fazer isso. Davix Huxley, também australiano, puxou um boieng 747 de 187 toneladas durante um minuto e 27 segundos, o que não significa que até o fim da sua vida você vá conseguir o mesmo.
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Para qualquer problema, o cavalo Sansão sabia a resposta: “trabalharei mais ainda!”. Se as coisas estavam erradas, era porque ele tinha trabalhado pouco. Veja o filme de Will Smith por outro lado: um homem tenta conseguir dinheiro fácil e chega próximo a miséria. Moral da história: não existem milagres; trabalho duro dá alcance a tudo. Esforço e recompensa. É o método geralmente usado com crianças e ratos. O cavalo Sansão seguiu seu lema até o fim, mas nunca se tornou nada além do que o que sempre foi: um trabalhador. Acabaria morto, anulado em uma revolução que cada vez mais deixava de ser a dele.
Como todos, a não ser o protagonista do filme. No cinema, gente chorava ou sorria pela emoção. Por nada. Eles acreditaram em efêmero e uníssono, que tudo era possível.

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