ideias avulsas #2
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Deve conhecer a história de Perseu e da Medusa. O primeiro foi o único a vencer o monstro que tornara tantos outros em pedra, por terem apenas olhado para ela. Há uma interpretação do mito que diz o seguinte: a Medusa representa os nossos medos, expulsos pela mente ao limiar consciente/inconsciente. Olhar para nossos temores mais profundos sem preparo nos levaria à afasia, à imobilidade, à derrota. Perseu vence a Medusa usando o presente que lhe dera a deusa Athena: um escudo tão polido que era como um espelho. Ou seja: refletindo os medos profundos, não os olhando diretamente, vendo-os através da razão (Athena é a deusa da sabedoria) — assim ele pode vencer o monstro. Quero entender isso como característico da sociedade grega, e, portanto, da nossa, helênica como é. Mas contam a história de outro jeito em uma produção de outra cultura.
O anime Cavaleiros do Zodíaco é um série infantil na qual a reencarnação da deusa Athena tem sua guarda pessoal de cavaleiros, a servir-lhe para enfrentar quem ameaçe a paz desse mundo e também para defendê-la (na série, ela é uma garota chamada Saori, sempre frágil). Acontece uma série de intrigas e os cavaleiros (divididos em bronze, prata e ouro) acabam lutando entre si. Um dos cavaleiros vilões é o cavaleiro de prata da Medusa, que possui um escudo com a face do monstro e com seus poderes: torna pedra os inimigos. O cavaleiro de bronze de Dragão vai enfrentá-lo. Este herói possui também um escudo, cujo maior poder é a sua resistência incrível, e não a polidez. Ele não permite ver sem perigo, permite resistir o maior tempo possível. O cavaleiro de Dragão vence o da Medusa furando os próprios olhos. Qual a interpretação desse outro modo de contar a lenda, em paralelo com a primeira?
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Ao contrário do que eu disse antes, em No Caminho de Swann não há só um apaixonado. O próprio protagonista conta suas desventuras nessas questões. Em Proust, o amor é todo um processo psicológico em que nos convencemos da importância da pessoa amada, sofremos pela falta de atenção, desprezamos o mundo por ela, manipulamos o mundo para que ajude a estar mais perto dela, nos esforçamos para crescer e agradar, nos enganamos de mil jeitos, pegamos prazer de coisas cada vez menores, e etcetera, etcetera. Não vou comentar isso. Eu quero discutir o fato de em uma série de músicas contemporâneas existir a ideia de que esse amor destrutivo e criador de Proust não é necessário e/ou possível. Três exemplos:
Arctic Monkeys: “There ain’t no love no... no Montague’s or Cappulet’s..”
Sendo Montagues e Capuletos as duas famílias que brigam em Romeu e Julieta.
Kate Perry: “I kissed a girl just to try it, It felt so wrong, It felt so right — don't mean I'm in love tonight”
Bloc Party: “This is not the time, the time to start a new love, this is not the time, the time to sign a lease”
Aproximando o amor com um contrato.
Não sei o que isso significa, e espero que vocês me digam. Estamos em um tempo onde dar importância total a uma pessoa, sofrer por falta de atenção e desprezar ou manipular todos no mundo é impossível?
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Continuando com Cavaleiros do Zodíaco.
Considere visão helênica versus visão oriental e que: a) a representante da sabedoria, de um lado, é forte e magnânima, do outro, quase sempre frágil e indefesa; b) o escudo tem apenas uma função prática no caso do anime, e não definitiva, necessária; c) vencer os medos, num caso, é usar a razão, dissecá-los e entendê-los de longe, no outro, ferir a si mesmo (ou punir a si mesmo). Coerente para uma sociedade do haikiri, o suicídio em caso de desonra?
A última batalha do cavaleiro de Dragão antes do seu (não-definitivo) falecimento, é contra o cavaleiro de ouro de Câncer, chamado Máscara da Morte. Este vilão o leva para o mundo inferior, o reino dos mortos. É razoavelmente seguro dizer que representa o maior medo da raça humana: o fim. Após vencer o inimigo, ele volta à vida e pode enxergar. Após estar no mundo da morte e conhecê-la sem disfarces, volta a poder ver. Aqui, novamente, vencer os medos significa um risco para si mesmo, uma batalha de perto, não de longe. É uma divisão entre racionalismo e empirismo? Só isso ou mais? A que as interpretações levam?
