Domingo, Maio 24

ideias avulsas #2

Em No Caminho de Swann, de Proust, temos um homem apaixonado. Esse homem não tem recebido muita atenção do objeto da sua paixão. Depois de um longo processo em que esse amor foi se decompondo, apodrecendo, etcetera, ele se pensa curado. Crê que já pode viver sem ela, deixá-la, enfim, e não sentirá dor. Proust avisa que este homem está errado. Pois a configuração de vida que se seguiria à falta da mulher não era apenas a configuração antiga sem ela, mas uma nova organização de coisas totalmente diferente e imprevísivel. Não vou comentar isso. Apenas quero dizer que, se isso é verdade, o mesmo vale para as conquistas que poderíamos ter, mas não temos certeza do benefício, ou talvez nem saibamos pra quê as queremos. A estrutura de vida após a nova conquista não será a vida que conhecemos mais a conquista, e sim uma nova configuração diferente e com possibilidades que nem podemos enxergar antes de estar efetivamente vivendo-a. Ou: Sim, senhor!, com o Jim Carrey.

---

Deve conhecer a história de Perseu e da Medusa. O primeiro foi o único a vencer o monstro que tornara tantos outros em pedra, por terem apenas olhado para ela. Há uma interpretação do mito que diz o seguinte: a Medusa representa os nossos medos, expulsos pela mente ao limiar consciente/inconsciente. Olhar para nossos temores mais profundos sem preparo nos levaria à afasia, à imobilidade, à derrota. Perseu vence a Medusa usando o presente que lhe dera a deusa Athena: um escudo tão polido que era como um espelho. Ou seja: refletindo os medos profundos, não os olhando diretamente, vendo-os através da razão (Athena é a deusa da sabedoria) — assim ele pode vencer o monstro. Quero entender isso como característico da sociedade grega, e, portanto, da nossa, helênica como é. Mas contam a história de outro jeito em uma produção de outra cultura.

O anime Cavaleiros do Zodíaco é um série infantil na qual a reencarnação da deusa Athena tem sua guarda pessoal de cavaleiros, a servir-lhe para enfrentar quem ameaçe a paz desse mundo e também para defendê-la (na série, ela é uma garota chamada Saori, sempre frágil). Acontece uma série de intrigas e os cavaleiros (divididos em bronze, prata e ouro) acabam lutando entre si. Um dos cavaleiros vilões é o cavaleiro de prata da Medusa, que possui um escudo com a face do monstro e com seus poderes: torna pedra os inimigos. O cavaleiro de bronze de Dragão vai enfrentá-lo. Este herói possui também um escudo, cujo maior poder é a sua resistência incrível, e não a polidez. Ele não permite ver sem perigo, permite resistir o maior tempo possível. O cavaleiro de Dragão vence o da Medusa furando os próprios olhos. Qual a interpretação desse outro modo de contar a lenda, em paralelo com a primeira?

---

Ao contrário do que eu disse antes, em No Caminho de Swann não há só um apaixonado. O próprio protagonista conta suas desventuras nessas questões. Em Proust, o amor é todo um processo psicológico em que nos convencemos da importância da pessoa amada, sofremos pela falta de atenção, desprezamos o mundo por ela, manipulamos o mundo para que ajude a estar mais perto dela, nos esforçamos para crescer e agradar, nos enganamos de mil jeitos, pegamos prazer de coisas cada vez menores, e etcetera, etcetera. Não vou comentar isso. Eu quero discutir o fato de em uma série de músicas contemporâneas existir a ideia de que esse amor destrutivo e criador de Proust não é necessário e/ou possível. Três exemplos:

Arctic Monkeys: “There ain’t no love no... no Montague’s or Cappulet’s..”

Sendo Montagues e Capuletos as duas famílias que brigam em Romeu e Julieta.

Kate Perry: “I kissed a girl just to try it, It felt so wrong, It felt so right — don't mean I'm in love tonight

Bloc Party: “This is not the time, the time to start a new love, this is not the time, the time to sign a lease

Aproximando o amor com um contrato.

Não sei o que isso significa, e espero que vocês me digam. Estamos em um tempo onde dar importância total a uma pessoa, sofrer por falta de atenção e desprezar ou manipular todos no mundo é impossível?

---

Continuando com Cavaleiros do Zodíaco.

Considere visão helênica versus visão oriental e que: a) a representante da sabedoria, de um lado, é forte e magnânima, do outro, quase sempre frágil e indefesa; b) o escudo tem apenas uma função prática no caso do anime, e não definitiva, necessária; c) vencer os medos, num caso, é usar a razão, dissecá-los e entendê-los de longe, no outro, ferir a si mesmo (ou punir a si mesmo). Coerente para uma sociedade do haikiri, o suicídio em caso de desonra?

A última batalha do cavaleiro de Dragão antes do seu (não-definitivo) falecimento, é contra o cavaleiro de ouro de Câncer, chamado Máscara da Morte. Este vilão o leva para o mundo inferior, o reino dos mortos. É razoavelmente seguro dizer que representa o maior medo da raça humana: o fim. Após vencer o inimigo, ele volta à vida e pode enxergar. Após estar no mundo da morte e conhecê-la sem disfarces, volta a poder ver. Aqui, novamente, vencer os medos significa um risco para si mesmo, uma batalha de perto, não de longe. É uma divisão entre racionalismo e empirismo? Só isso ou mais? A que as interpretações levam?

Domingo, Maio 17

skoob: Proust, Nabokov e Fernando Sabino

Alguns textos que escrevi e publiquei no Skoob, mais pessoais e menos extensos.
---

No Caminho de Swann - Em Busca do Tempo Perdido - Vol. 1

Proust pode ser recompensador em diversos âmbitos. Pode dar o prazer de ler e reler uma página em que se encontra uma descrição de incrível intensidade poética e beleza visual. Pode demonstrar as características das classes sociais — aristocracia, burguesia, plebe — pelas nuances do diálogo, pela captação dos gestos e das intenções. Pode ampliar a compreensão de algo trazendo uma comparação às vezes até dolorosa. E pode — isso é o mais importante, ao menos para mim — demonstrar como a realidade psicológica se constrói: passo a passo.

Os sentimentos (dor, amor, saudade, ciúme) são analisados desde o fato pueril que pode lhes dar início, passando pelas condições que permitiram com que se desenvolvesse e pelos efeitos que causa, até as circunstâncias que podem fazer com que desapareça. Tudo o que pensamos a respeito de qualquer coisa — pessoas, lugares — se mostra como uma construção que derivou dessas condições iniciais e que se alimentou dessas circunstâncias posteriores.

Nosso mundo em Proust, então, aparece como construção imaginária (ou espaço heterotópico, se é que posso usar Foucault) e realidade factível, que pode ser pouco importante em relação à primeira.

Todos esses prazeres que pode nos dar a leitura de Proust, no entanto, demoram para ser digeridos. Eu, ao menos, me encaixei em uma forma de leitura: lia as páginas e parava pelo tempo necessário para remoer uma ideia. Assim, fui incorporando o ideário do livro, absorvendo-o. No Caminho de Swann tem uma narrativa que envolve aos poucos, remetendo a nossas próprias memórias através das do protagonista.
---

O Menino no Espelho, Fernando Sabino

Foi o primeiro livro que li. Penso hoje que a maior qualidade do livro é o modo como Sabino trabalha uma série de fantasias da infância, pelo menos da infância de um menino. Fernando, o protagonista, consegue (e perde) o poder de realizar qualquer desejo (ele cria um piscina imensa no seu quintal de terra, e abaixo da piscina, um Q.G. do tipo que os super-heróis tem; ele voa através das árvores nas costas do Tarzan), tem um grupo secreto de espiões que se reúne no telhado da sua casa, quase aprende a voar, sua imagem se destaca do espelho e vai à escola por ele, ele se apaixona pela prima, e ele liberta os passarinhos...

A libertação da grande coleção dos passarinhos é um dos momentos mais belos do livro, a imagem está gravada na minha mente até hoje. É uma imagem de heroísmo, bondade, responsabilidade individual, liberdade — uma imagem ingênua, infantil (no bom sentido) que resume uma epopéia.

No prólogo e no epílogo, Fernando se encontra consigo mesmo. Primeiramente, ele criança se vê em frente a um desconhecido adulto. No fim, ele adulto se reconhece criança. A sensação que vou descrever também acontece em O Encontro Marcado, também de Sabino, no momento em que afinal o citado encontro se cumpre: uma sensação de que tudo da vida passou, tudo de fato aconteceu, e tudo perdeu sua luz, sua vida, seu sentido. Mas Fernando adulto vê ali a criança e a luz e a vida e o sentido, antes que o tempo esmagasse tudo, dá um único conselho a si mesmo: "pense nos outros". E desaparece.
---

Fogo Pálido, Vladimir Nabokov

Não sei se em literatura existem termos equivalentes, mas em cinema, podemos falar de campo e contracampo, sendo "campo" aquilo que podemos ver na tela e "contracampo" aquilo que acontece na história e que sabemos (imaginamos até) que está acontecendo, mas de fato não vemos. Quando alguém na tela acena para um outro alguém e esse não é mostrado, mas presumivelmente responde, isto aconteceu no contracampo.

Pois bem.
Fogo Pálido, de Nabokov, tem uma narrativa principal e uma série de narrativas que se pode dizer que acontecem no contracampo. As imprecisões da história do narrador e as visões contrastantes dos outros personagens que nunca tem voz, além da nossa própria consciência do absurdo de algumas passagens forma todo o charme do livro.

Esta narrativa principal é a de um editor de um livro de poesias de um poeta assassinado. Mas a cada nota que faz ao poema, o editor se distancia mais do que poderiam ser as intenções do autor — na visão dele, expondo o que seriam as verdadeiras intenções do autor. Enquanto o poeta faz um poema autobiográfico, cujo valor me parece estar na descrição, sem tentativa de beleza artística, do cotidiano, o editor vê em tudo isso uma narração cifrada a respeito de um país inóspito, Zembla, e as aventuras de um rei homossexual, tremendamente avesso a mulheres, que é deposto e foge. E mais: enxerga em algumas palavras a previsão de que o assassino do poeta se aproximava, não para matá-lo, mas para matar o rei.

É, então, crítica literária absurda + história de aventura + história de mistério + poesia, digamos, naturalista. Isso é o que vemos; mas sabemos muito pouco e só supomos qual foi a reação (indignada) a respeito da edição feita para o poema, da real relação do poeta e do editor, das condições psicológicas do próprio editor. Com parcos recursos e poucas pistas, vamos construindo a verdade, a personalidade de um e de outro.

E, ah! Aí talvez estejamos fazendo o mesmo que aquele editor, compondo o quadro que mais nos agrada a partir de referências arbitrárias. Não foi Wilde que descreveu a crítica como falar de si? Assim: o método para uma resenha seria: 1 - ponha o livro a sua frente; 2 - imagine o que quer que esse livro possa te interessar; 3 - passa a falar de você.

No contracampo, Nabokov nos revela, lá também estamos nós, afinal.

Domingo, Maio 10

do prefácio de: Matadouro 5, Kurt Vonnegut

(...) Já então eu estava escrevendo um livro sobre Dresden. Na época não era um ataque aéreo muito conhecido nos Estados Unidos. Poucos americanos sabiam o quanto aquele ataque tinha sido pior do que Hiroshima, por exemplo. Eu também não sabia. Não fizeram muita publicidade a respeito.
---
— Acho que o clímax do livro será a execução do pobre Edgar Derby – eu disse – A ironia dessa história é muito incrível. Uma cidade inteira é incendiada e milhares de pessoas são mortas. Então, um único soldado raso americano é preso nas ruínas por pegar uma chaleira. Ele enfrenta um julgamento normal e é executado por um esquadrão de fuzilamento.
— Hm – respondeu O’Hare
— Você não acha que o clímax está exatamente aí?
— Eu não sei de nada – disse ele – Este é o seu negócio, não o meu.
---
Então, ela se virou para mim, deixou que eu visse como estava sentindo raiva e que a raiva que sentia era de mim. Estivera falando sozinha. O que ela disse, então, era apenas um fragmento de uma conversa muito maior.
— Vocês eram umas crianças naquela época! – ela disse.
— O quê? – perguntei.
— Vocês eram apenas crianças durante a guerra... como aqueles que estão lá em cima!
Assenti, concordando com o que ela dizia. Havíamos sido virgens tolos na guerra, bem no fim da nossa infância.
— Mas você não vai escrever a história assim, vai? – Não era um pergunta. Era uma acusação.
— Eu... eu não sei – respondi.
— Bom, eu sei – disse ela – Você vai fingir que vocês eram homens em vez de crianças. E vocês serão interpretados no cinema por Frank Sinatra ou John Wayne ou algum desses velhos safados glamourosos e defensores da guerra. E a guerra vai parecer maravilhosa, para que tenhamos muitas outras delas. E elas serão lutadas por crianças como as que estão lá em cima.
---
Mackay nos informou que a Cruzada das Crianças começou em 1213, quando dois monges tiveram a ideia de formar exércitos de crianças na Alemanha e na França e vendê-los para o Norte da África como escravos. Trinta mil crianças se apresentaram voluntariamente, achando que iriam para a Palestina. Eram, sem dúvida, crianças à toa e abandonadas que normalmente abundavam nas grandes cidades. Criadas no vício e na criminalidade, escreveu Mackay, e prontas pra tudo.
O Papa Inocêncio Terceiro também pensou que eles iriam para a Palestina, e ficou empolgado com a ideia.
— Essas crianças estão acordadas enquanto nós estamos dormindo! – disse.
A maioria das crianças embarcou em Marselha, e cerca da metade delas se afogou em naufrágios. A outra metade chegou ao Norte da África, onde foi vendida.
---
Folheei a Bíblia no meu quarto de motel atrás de histórias de grandes destruições. O sol havia se levantado sobre a Terra quando Lot entrou em Zoar, li. Então o Senhor fez chover enxofre e fogo dos céus sobre Sodoma e Gomorra; e ele destruiu as cidades e toda a área ao redor e todos os moradores das duas cidades e tudo o que crescia de suas terras.
Coisas da vida.
Ambas eram cidades de pessoas vis, como se sabe. O mundo ficou melhor sem elas.
E a mulher de Lot, claro, foi orientada a não olhar para trás, onde todas aquelas pessoas e suas casas um dia estiveram. Mas ela olhou para trás, e eu a amo por isso, porque foi uma atitude muito humana.
Então, ela se transformou numa estátua de sal. Coisas da vida.
---
Disse a meus filhos que eles não devem em hipótese alguma participar de massacres e que as notícias sobre os massacres dos inimigos não devem deixá-los nem orgulhosos nem felizes.
---
Já terminei meu livro de guerra. O próximo que eu escrever será divertido.
Este aqui é um fracasso. E tinha de ser, já que foi escrito por uma estátua de sal. Começa assim:
Escute:
Billy Pilgrim soltou-se no tempo.
Termina assim:
Piu-piu-piu?

Sábado, Maio 2

vai, curíntia!

Outro dia, eu falei sobre o heroísmo do esporte, sobre o heroísmo da narrativa do esporte. É algo que é compartilhado com a arte, com a literatura, cinema, principalmente nas histórias de fantasia, mas também em outras. Talvez todos nós precisemos desse tipo de mensagem, e alguns o pegam em Tolkien, outros na Bíblia, outros no Corinthians. Para entender o que eu vou dizer será preciso pensar todas essas coisas como feitas de fragmentos: uma pessoa religiosa não se liga à religião por , ou melhor, sim, se liga, mas o que chamamos é um composto de necessidades distintas que são simultaneamente satisfeitas pela igreja. Para dar um ideia inicial e partirmos do mesmo lugar, vamos analisar como me tornei corintiano.

Fora certas condições familiares, foram três narrativas da história do Corinthians que deram força e consistência à minha ligação afetiva com o time. Primeira: a dos 22 anos sem vitória em qualquer campeonato. Mas, em todo esse tempo, a torcida permaneceu fiel, enchia estádio e permanecia gritando e balançando bandeira. O que isso significa? A ideia de que apesar de tudo, resistimos. A mesma de À Procura da Felicidade. A mesma, e não creio que exagero, do exílio judaico. Apesar de tudo, resistimos — vindo da fonte que venha, o efeito mental é o mesmo. Isso estava de acordo com uma ideologia do meu entorno e, ao mesmo tempo, se alimentava da identidade em que me moldavam e lhe dava apoio externo.

Segunda história: Luizinho, atacante de 1930, jogava contra o Palmeiras. Habilidoso, partiu pra grande área, driblou meio mundo incluindo goleiro, parou na linha do gol, sentou-se na bola e esperou que viessem fazer qualquer coisa. Aí marcou. O que isso representa? É uma defesa cínica do perfeccionismo; ele era tão bom, tão acima das capacidade dos outros, que se permitiu ser arrogante. A arrogância vem do mérito, disse House em um episódio. Outra vez, se repete a dialética do exemplo anterior: havia essa defesa da perfeição na criação que tive, provavelmente foi por isso que me reconheci nela. Terceira: frases como ‘corintiano é sempre corintiano’ ou ‘corintiano nasce corintiano’. Enfim: a ideia de algo que é maior do que eu, a ideia de que eu faço parte de alguma coisa e a ideia de que é como se eu estivesse destinado a sê-lo, como se escolhido, como se um dos únicos com tais aptidões.

Essas histórias personalizam o time e reforçam a ideia que eu tenho de mim mesmo. Livros, letras de música, poesias, a narrativa da vida dos artistas, todos esses cumprem o processo e dar apoio externo à ideias que compunham minha atmosfera mental. As histórias dão, nessa ordem em que as contei, as abordagens para tudo o que precisar de convicção, tudo o que se referir a objetivos e tudo o que tratar de personalidade. Essas abordagens, eu as vejo como necessidades da psique. Teremos sugestões de abordagens vindas de amigos e família, mas que só serão aceitas se forem reforçadas por narrativas e por exemplos gratificantes, isto é, nós tentamos tal e tal funcionou. Então, me disseram que eu devia ser perfecionista, o time que me apresentaram reforçava essa ideia, os animes que eu assistia, idem, e eu usei a ideia em alguma situação e fui recompensado de alguma forma. Voilà: a abordagem vira padrão.

Uma igreja fornece a mesma abordagem para convicção, reúne os maiores objetivos de uma pessoa na instituição e empresta uma personalidade com os contornos de uso psicológico e social já desenhados. Satisfaz outras necessidades também, como a abordagem da incerteza (solucionada com o bloqueio da sensação de incerteza; o assunto, a partir da reza, é tratado por outra entidade). Tem outro ponto em comum com os times que é o convívio social; uma necessidade de todos, satisfeita pelo time e pela igreja porque todos vão ao mesmo lugar e tem os mesmos assuntos, vestem-se de forma semelhante, etc.

É claro que a cada jogo esse reforço de aborgadem é posto em cheque. Aí ele se formula do mesmo jeito como a : a minha aposta numa partida e a minha graça concedida são modos de afirmar ou negar que a minha escolha foi inteligente. Amanhã é um teste definitivo para quase todos os ideais que citei do Corinthians. A narrativa é heróica: o time é rebaixado, se eleva novamente com uma excelente campanha, disputa todo o Paulista sem derrotas e faz 3x1 no Santos dentro da Vila Belmiro. O mesmo para um microverso dentro do time, que é o Ronaldo, que se quebrou várias vezes e agora ressurge como um dos melhores atacantes do campeonato. A vitória é a desforra. Novamente a sensação de parentesco: me parece que todos os torcedores tem a mesma preocupação e estão à beira da mesma alegria.

E há um elemento presente em qualquer narrativa do futebol: nada é garantido. Nos últimos minutos a situação muda inteiramente e definitivamente, e todas as seguranças se esvaem e todas as convicções eram só pretensão. Essa é uma abordagem sugerida para a certeza, isso a todos os brasileiros, já que é o esporte nacional? Talvez por isso, uma campanha consiga emplacar o slogan: eu sou brasileiro e não desisto nunca. Se não se pode ter certeza de que tudo vai dar certo, o oposto também é verdadeiro. Talvez por isso a frase de um estrangeiro faça sentido nas críticas à nação: o Brasil é o país do futuro. Nós, esperando pelo milagre que com certeza virá...mesmo perto do fim, nosso sertão tem melhora...resumindo tudo num mesclo de coragem e apatia, resistência e alienação. É isso mesmo?

Sábado, Abril 25

subterrâneo invisível subjetivo

Dois documentários exibidos no DocTV, nessa semana e na passada.

---

No Traço do Invisível — em certo momento do filme, um representante de galeria faz uma espécie de resumo da história do grafite. A intervenção dos grafistas urbanos teria trazido à cidade uma aparência ‘mais legal’, um valor estético, um tipo de beleza. Diz: “é agressivo? Mas já era agressivo antes!”. Isso dá dimensão de toda a filosofia que justifica a existência de um artista como Zezão, grafiteiro que é o objeto desse documentário. Só posso entender a cidade como sendo hostil na medida em que ela se distancia do que seja uma casa. A casa é familiar, se identifica comigo e me identifico com ela. Mas na cidade não há nada que me lembre, nada que lembre o indivíduo comum; apenas a racionalidade anônima.

Se eu fosse fazer uma distinção, diria que ocupamos a cidade, mas não a habitamos. E tanto quanto nós somos invisíveis para a cidade, a cidade é invisível para nós. A pixação pode ser feia, ofensiva — mas, sem ela, nem teríamos notado o prédio, residência, escultura. Nesse sentido, me parece evidente que se trata de arte: nos desperta. A arte subterrânea de Zezão vai, ao meu ver, aprofundar esses dois conceitos. Eu estive próximo a começar esse texto da seguinte forma: “depois de assistir, a cidade se me tornou desconhecida, desconfiava donde punha os pés”. Mas isso seria um engano, a cidade sempre foi assim, era eu o sonâmbulo...

O que vemos Zezão fazer no documentário é ir a prédios abandonados, entrar nos imensos canos que despejam a água da chuva no Tietê, vagar sob o Pacaembu, a imensidão inóspita que é o piscinão subterrâneo ao estádio, dar qualquer beleza a trens velhos, enferrujados, já fora de uso. Lá, ele pinta um desenho abstrato, geralmente azul, claro nas linhas onduladas e escuro nos grossos contornos. Avaliar a arte que ele faz não pode se resumir tão somente nas pinturas; sua arte é um complexo que envolve o grafismo, a intervenção urbana e toda a filosofia com que se relaciona. Não é feita para ser exibida, ver a obra real exige percorrer a cidade como o artista fez, conhecê-la por dentro. Só o fato dela existir já é um convite para conhecer verdadeiramente a cidade; ou ao menos demonstrar como não a conhecemos.

Quando passar pelo Tietê, olhe aqueles canos jorrando água e ali estará uma obra longe do seu alcance. E isso vale para a imensidão de lugares, histórias e vivências. A cidade é feita de pessoas e da curiosidade de cada vida, mas não há nada na cidade que as lembre, nada a não ser multidão racionalizada (rotulada) é lembrada. Penso que essa é a fonte do interesse vivo que geram os perfis da Piauí (principalmente seções Esquina e Diário), assim como as obras de Gay Talese, como Fama e Anonimato (dando vida aos ninguéns de New York), ou O Livro Amarelo do Terminal (expondo os mil anônimos da Rodoviária Tietê), de Vanessa Bárbara. Quero dizer, essa arte torna a cidade menos pedra, mais gente.

---

Paraíso — em certo trecho de O Marinheiro, peça de Fernando Pessoa, é dito: “parecia-me que vós, e a vossa voz, e o sentido do que dizíeis eram três entes diferentes (...) que falam e andam (...) com vida própria e real”. Parece que a estética de Paraíso segue algo dessa ideia — algo deste conceito, se constrói para criar essa sensação. Acompanhamos uma porção de histórias, vários entrevistados identificados apenas pelo primeiro nome, cuja voz raramente se vincula diretamente a quem fala: às vezes, há um descompasso entre gestos ou ação que vemos, às vezes são imagens que parecem explorar o imaginário da narrativa, ou, no caso de estrangeiros, uma única linha central que traduz o significado em português. O resultado disso é o desvínculo de som, ideia e indivíduo, três espaços distintos cada um enviando tal estímulo para o dentro de nós: sensação, razão ou afeto.

Assim são perceptíveis clichês na fala de alguém, as diferenças entre as palavras de línguas parecidas, como o espanhol e o português, o jeito de rir, o jeito de lembrar. Ou se pode dar atenção só às memórias e o que elas fazem pensar: um homem que nunca pode confiar em ninguém, e a culpa é da sua mãe, que lhe ensinou a sempre olhar o reverso no verso. E uma mulher que se arrepende desde tanto tempo por um dia não ter abraçado, demonstrado mais afeto a uma conhecida. Quem sabe nada disso, podemos só se identificar, ver que há muito do outro em nós: o velho que fala das coxas das meninas (“você ri porque entende, também tinha uma moreninha na sua cidade”) ou a filha de uma mãe que sempre ia com os filhos ao parque — um lugar calmo para esquecer os problemas, todos tem de ter um lugar calmo...

Tudo gira em torno — todas as histórias são estimuladas por — uma pergunta central que parece ser: “o que é o paraíso para você?”. Ou o que foi, ou o que seria. É uma pergunta com a qual eu posso me identificar; é mesmo fácil procurar uma resposta para isso dentro da gente, o que é meu paraíso, o que é meu inferno — como se diz nessa música, “não há certo e errado, mas estou certo de que há bom e ruim”. Acaba tudo e eu faço meu próprio diálogo subjetivo com aqueles personagens. Sem saber quem são ou o que fizeram além do que contaram, monto uma personalidade que me pareça coerente. Mas que não passa de uma ilusão consistente — não tenho uma pessoa concreta, tenho palavras, imagem, voz, indivíduo filmado, cada qual uma mensagem distinta. Essa subjetividade fragmentada torna tudo ainda mais próximo de Pessoa: “quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que há mil vozes mínimas a falar. A espuma só parece fresca a quem a julga uma...”.

Terça-feira, Abril 14

Encontros e Desencontros

Para falar de ‘encontros e desencontros’, tema desta blogagem coletiva, vou falar do filme traduzido com esse nome por aqui, e Whisky, filme uruguaio. Encontros e desencontros já sugere histórias só por estar assim disposto, temos memórias de encontros e também temos a nossa parcela de desencontros, e enquanto olharmos só para o primeiro a vida parecerá doce, quando lembrarmos do segundo veremos a vida amarga, mas colocar os dois juntos na mesma frase indica um processo em que a um segue o outro, ou uma nuvem de fatos em que um afeta o outro, em que são partes da mesma coisa. A vida, considerando ambos, ela é doce ou é amarga, no fim das contas? É agridoce? É um samba? É travessia?

As três palavras juntas são quase como um verso, me surgem densas como um poema. Nos meus momentos mais otimistas (ou mais desesperados, que acabam fazendo nascer um tipo de otimismo de resistência) repito o trecho de Fernando Sabino: “estaria sempre começando e serei interrompido antes de terminar. Fazer, da interrupção, um caminho novo; da queda, um passo da dança; do medo, uma escada; do sono, uma ponte; da procura, um encontro”. E, nos momentos de maior pessimismo, estou com Thom Yorke em There, There: não é porque você sente que alguma existe ou devia existir que essa coisa realmente existe; e com Robert Smith, em The Forest, procurando em meio às árvores uma menina, porém the girl was never there... it’s always too late. Again and again and again and again.

Passeie comigo pelo meu otimismo. Em Encontros e Desencontros, há a seguinte cena: de camisa azul, a garota se recosta contra uma ampla janela; atrás dela, a cidade imensa. Desde que vi, a imagem me ficou como símbolo de um tipo de solidão. Como canta o Morrissey, “quando você quer viver, aonde você vai, quem você precisa conhecer?”. Repara na cidade tão vasta e na menina agarrando os joelhos, na posição que, segundo os psicológos, é uma simbolização do feto, da vontade de voltar ao útero, a segurança. E nesse mundo imenso e vasto e não-seguro que, pelo acaso, pelo atalho imprevisto, ela acaba conhecendo uma outra pessoa, tão solitária quanto ela (mas talvez outro tipo de solidão) e, por algum tempo, esses dois se completam. Não eu nem Encontros falamos só de amor. Essa completude que pode acontecer de uma hora pra outra está na amizade, nos livros, nos discos, nos desejos...

Passeie comigo pelo meu pessimismo. Em Whisky, os únicos sorrisos são os exigidos pelas fotos. O fotógrafo diz: whisky!, as pessoas repetem: whisky!, e um sorriso artificial estará para sempre congelado como um sorriso genuíno. Penso que esse é o sentido do filme: essa felicidade aparente que por trás esconde a solidão; ou melhor: como a solidão pode se fazer surgir como harmonia, como conflitos internos podem esvaecer numa sombra de alegria. A história é a seguinte: a mãe de dois personagens morre. Um deles, que mora no Brasil, fará uma visita ao Uruguai, casa de seu irmão mais velho, por causa de uma festa judaica que se passa alguns dias depois do enterro. Esse irmão mais velho resolve pedir a uma funcionária sua que simule ser sua esposa — ao que tudo indica para simular uma vida feliz, completa. Ficam juntos na mesma casa, conversam e acabam viajando juntos.

O que faria qualquer um pensar que se gostam, porque se crê que as pessoas se juntem por gostarem umas das outras. Mas o irmão mais novo sempre fala muito, talvez tentando com algum desespero ocupar os longos silêncios. O irmão mais velho quase não fala, interaje ou reclama de coisa alguma. Parece ter despeito pelo fato de não ter recebido ajuda quando sua mãe estava adoentada e só ele havia a ajudá-la. Já a falsa esposa se maqueia, dá a impressão de querer agradar ou se aproximar do esposo falso, que nunca avança nesse sentido. Todos continuam solitários mesmo reunidos, fechados nas suas próprias preocupações, ignorados nas suas necessidades — seu encontro é um desencontro. Nem mesmo nós, assistidores do filme, temos certeza de suas vontades ou precisões: nada é explicado, não há psicologia, e o resultado é a consciência de que estamos longe dos personagens, ou de qualquer pessoa. É a mesma sensação de Feliz Aniversário, conto de Clarice Lispector.

Há outras possibilidades. Podem haver desencontros que são como um encontro, é difícil se encontrar e essa dificuldade dá vida, frequência, à relação (“a gente ria tanto desses nossos desencontros...”). Ou pode haver um encontro cheio de tensão e coisas a serem ditas, de fim iminente, que é um esboço de encontro, de um encontro que, quem sabe, nem será. E o que há além disso, do processo, nuvem, samba, travessia, redemoinho em que estamos postos? Existe o quem somos. Complicado? Existem os nossos encontros e desencontros com o que pensamos que somos, com o que queríamos ser, com o que os outros esperam que sejamos. Até esse quem somos, esse grupo de representações, é fragmentário. Qual parte de nós entra em contato com qual parte de outra pessoa? Qual desejo de nós satisfaz o de outro e qual o desejo desse outro nos satisfaz? É muito amplo, complexo, muito evangelion...

Que há mais a dizer? Mesmo esse texto é um desencontro e um encontro com seu tema...